Sábado, 9 de Outubro de 2004

O Culto a Madonna

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No jornal Diário Económico, saiu uma matéria interessante sobre Madonna. Confiram:

O culto a Madonna

por Ana Rita Guerra

Ninguém consegue apontar o momento em que Madonna se tornou diferente dos outros artistas pop. Eis a mulher que quebrou todas as barreiras na cultura ocidental.

Catorze de Setembro de 1984, primeira edição dos MTV Video Music Awards: nada seria como antes na cultura da música pop, que fervilhava numa década repleta de ‘one hit wonders’ e em que os cabeleireiros governavam o mundo. Uma artista quase desconhecida desafia os limites da audiência e da própria MTV, que estava no ano de lançamento: vestida de noiva, rasteja pelo palco cantando ‘Like a Virgin’ de uma forma tão provocadora quanto sexualmente inocente. O mundo conhecia um fenómeno que poucos acreditavam poder manter-se nas luzes da ribalta por mais de vinte anos: Madonna.

Na verdade, ‘Like a Virgin’ nem era o primeiro álbum da artista de 26 anos, mas veio a tornar-se o maior sucesso de toda a sua carreira, vendendo várias dezenas de milhões de cópias e instituindo uma imagem de culto à sua volta. Singles como ‘Material Girl’ e ‘Into the Groove’ seguiram o caminho da faixa-título e atingiram o topo das tabelas, enquanto ‘Dress you up’ era utilizada nos anúncios da cadeia norte-americana de pronto-a-vestir GAP, contribuindo para a onda que se formava à sua volta. Ao mesmo tempo, os seus vídeos mostravam uma menina-mulher que abusava da maquilhagem, usava adereços religiosos e tinha o cabelo mal pintado de loiro, num estado permanente de desalinho.

Como se explica, então, que esta cantora vocalmente pouco dotada e cuja música era uma mistura ‘light’ entre sonoridades pop e alguns clichés se tenha tornado na artista feminina mais famosa de todos os tempos? Instinto profissional e um punhado de bons produtores não parecem explicação suficiente; aliás, nada parece chegar para justificar o império que Madonna construiu.

Disposta a tudo
«As pessoas ainda não sabem como eu sou boa. Mas vão descobrir rapidamente. Aliás, eu pretendo ser uma das maiores estrelas do século». Em poucas palavras, a jovem de 25 anos descrevia o seu futuro com uma precisão metódica ao então jornalista J. Randy Taraborrelli, hoje autor de uma das suas biografias mais aclamadas. Era disto que se tratava, no fundo: ambição em estado puro.

Na adolescência, Madonna previa a sua ascensão através da dança, pela qual chegou a utilizar uma Bolsa na Universidade de Michigan. Mas quando rumou a Nova Iorque, em 1978, apercebeu-se que dificilmente atingiria o estatuto pretendido numa companhia de dança. Tornou-se baterista da banda ‘The Breakfast Club’ e foi obrigada a viver em estado de sobrevivência durante muitos meses, recusando-se a pedir ajuda ao pai, com o qual mantinha uma relação de amor-ódio.

Uma das raízes da sua busca desenfreada por reconhecimento encontra-se aqui. ‘Little Nonnie’, como era chamada em criança, nunca soube lidar com a morte da mãe, quando tinha cinco anos, e com o segundo casamento do pai. Junte-se a este ‘cocktail’ uma educação religiosa rígida e uma permanente revolta interior e é possível começar a compreender a imagem de Madonna no início da sua carreira.

Corpo, sexo, feminilidade, astúcia - foram estas as armas que a artista utilizou para conseguir o primeiro metro quadrado no palco da fama. Admitindo que se comportava como uma ‘cabra intolerável’ caso fosse necessário, Madonna conseguiu, em 1982, gravar o seu primeiro álbum para a Warner Bros, através da divisão de dança Sire, após uma estranha experiência com o músico experimentalista Otto Von Wernherr no início da década.

‘Lucky Star’, ‘Borderline’, ‘Holiday’, ‘Burning Up’ e ‘Everybody’ acabaram por ser temas muito bem aceites, principalmente no cenário dos ‘night clubs’. As portas estavam abertas e a última coisa que Madonna faria era deixá-las fechar.

A música, ou talvez não
Pouco depois da sua estreia no mundo da música, a veterana Cher afirmou publicamente que Madonna era «vulgar, agressiva e mesmo mal-intencionada». Em resposta, a jovem deu uma gargalhada e disse «Oh, por favor! É claro que sou». Não era propriamente simpática e pisou muita gente no seu caminho ascendente. Granjeou a inimizade, a repulsa ou o desprezo de diversas celebridades e várias vezes foi cilindrada pela crítica, que lhe apontava falta de talento camuflada pela imagem.

Mas o fascínio em torno da sua ‘persona’ não parava de crescer nos anos que se seguiram. Milhares de adolescentes começaram a vestir-se como ela, surgiram lojas de pronto-a-vestir dedicadas ao estilo da ‘material girl’. Madonna parecia dar ao público algo pelo qual este ansiava há muito tempo: uma pin-up’ rebelde, provocadora, gozando em pleno o estatuto de celebridade e sem medo de ser politicamente incorrecta. Ainda em 1985, foi capa da Time e recordou algo que tinha dito no início: «Não vou descansar enquanto não for tão famosa quanto Deus».

No entanto, ela sabia que o estado de graça não duraria eternamente. A partir de 1986, Madonna conduziu a sua carreira com inteligência suficiente para se manter na crista da onda. O lançamento de ‘True Blue’ foi o primeiro indício disso mesmo. Mais maduro em termos musicais, beneficiou da experiência de Steve Bray e Pat Leonard e mostrou a grande capacidade de Madonna para compor e escrever músicas ‘pop’. ‘Papa don’t preach’ (rodeado de controvérsia devido à alusão a gravidez na adolescência) foi parar ao Número 1 nas tabelas de vendas. ‘Open your heart’ e ‘Live to Tell’ tiveram o mesmo destino, enquanto o tema-título chegou a número 3 e ‘La isla bonita’ atingiu o número 4.

Sem ser um grande álbum, vendeu 20 milhões de cópias e mostrou uma Madonna reinventada: cabelo bem curto, loiro platinado, as sobrancelhas muito escuras e liberta de toda a imagética religiosa.

Pelo meio, um casamento problemático com o actor Sean Penn, falhanços rotundos nas incursões cinematográficas, embora com boas bandas sonoras (’Who’s that girl’ é um exemplo), álbuns de remisturas e romances que ficariam para a história - John Kennedy Jr., Prince e Warren Beaty serão nomes suficientes. Enquanto continuava a alimentar o apetite do público e da imprensa pela sua vida, por vezes mais que pela sua música, Madonna preparava o álbum que viria, de certa forma, a marcar uma viragem na sua carreira.

Em 1989, a artista está pronta para mostrar ao mundo ‘Like a Prayer’. Antes de colocar o disco nas lojas, Madonna conseguiu um contrato milionário com a Pepsi, para que a faixa que dá título ao álbum fizesse a sua estreia num anúncio que ela própria protagonizava. O escândalo surgiu com o vídeo que deu corpo à música: uma mistura explosiva de simbologia católica, racismo e a comparação do êxtase religioso ao êxtase sexual. A Pepsi retirou o anúncio de imediato e Madonna entrou em litígio com a empresa, perdendo milhões de dólares. No entanto, não poderia ter havido melhor campanha de publicidade para o álbum que continha os êxitos estrondosos ‘Cherish’, ‘Express Yourself’ e ‘Oh, father’. Na verdade, a maioria dos escândalos à sua volta foram despoletados como parte de uma estratégia empresarial.

A inversão do ciclo
Em 1996, o presidente da Argentina, Carlos Menem, recebeu Madonna em sua casa. A artista de 38 anos apelava directamente ao chefe de Estado para que permitisse a utilização da Casa Rosada na rodagem do filme ‘Evita’, que tinha sido escolhida para protagonizar. O problema estava na contestação do povo, recusando-se a aceitar que a cantora incarnasse um dos seus símbolos mais queridos.

Os estragos haviam sido feitos alguns anos antes. Após a maturidade de ‘Like a Prayer’ e de um bem sucedido ‘I’m breathless’, banda sonora do filme ‘Dick Tracy’, Madonna decidiu canalizar as energias para a sua identidade sexual. Acabara de concluir a tournée mundia, ‘The Blonde Ambition Tour’, que em muito ultrapassara o sucesso da primeira, e lançara um documentário rodado durante a mesma: ‘In bed with Madonna’. Mas a publicação do livro ‘Sex’, um trabalho de fotografia artística em que aparece quase sempre nua e em todo o tipo de interacções sexuais com vários parceiros, quase feriu de morte a carreira que construíra em dez anos. A contestação foi tão forte que fez com que a proibição do vídeo ‘Justify my love’ parecesse uma brincadeira.

Até então, Madonna sempre fora meticulosa quanto aos passos a tomar. Mas o lançamento do álbum ‘Erotica’ na mesma altura de ‘Sex’ provou ser um erro de estratégia. O trabalho, um dos melhores da sua discografia a todos os níveis, ficou demasiado associado ao choque provocado pelo ‘soft porn’ do livro e foi um ‘flop’ em termos de vendas. Pela primeira vez desde o início, todos pareciam estar fartos de Madonna.

Quando surgiu o novo trabalho, em 1995, Madonna estava irreconhecível. ‘Bedtime Stories’ não foi o álbum com as melhores críticas, mas abriu caminho para a recuperação da credibilidade, que confirmou um ano depois, com a compilação ‘Something to Remember’. E, no final de ‘Evita’, atingiu o que ninguém considerava ser possível: o reconhecimento como actriz, ao receber um Globo de Ouro.

A maternidade, a Cabala e tudo mais
Final da década. A jovem cruelmente ambiciosa que galgou as escadas da fama estava para trás. Madonna havia sido mãe de uma menina e estava prestes a lançar ‘Ray of Light’, numa era dominada por outras jovens ambiciosas. O trabalho sonorizado por William Orbit, voltou a dar uma mão cheia de números 1 à cantora de 40 anos e voltou a dar balanço à sua carreira, agora muito mais serena.

Entre este disco e o álbum que agora encabeça a ‘Re-Invention Tour’, ‘American Life’, ainda ficou um menos conseguido mas triunfante ‘Music’. O casamento com Guy Ritchie, o nascimento do segundo filho, Rocco, a adopção da Cabala e a publicação de livros para crianças talvez parecessem impossíveis a quem a conheceu nos primeiros tempos. A própria Madonna, provavelmente, nunca imaginaria assim o seu futuro. Odiada até ao limite por meio mundo e venerada por outro tanto, a sua grande conquista, no final de tudo, foi ter inscrito o seu nome ao lado de divas imortais, como Cleópatra e Marilyn Monroe.

Living in a material world
Calcular quanto vale o império de Madonna, com tudo o que a lista acarreta - a sua própria editora, Maverick, direitos de autor sobre os filmes, discos e tudo o que contém a sua assinatura e as suas propriedades móveis e imóveis - é tarefa difícil. Max Flint tentou fazê-lo num documentário exibido a 25 de Agosto na cadeia de televisão ABC, e chegou à conclusão de que a artista vale 213 milhões de dólares, depois de impostos. A esta soma poderemos adicionar contratos publicitários, como o realizado com a GAP, em 2003, no valor de 10 milhões de dólares. Quanto à ‘Re-Invention Tour’, cada espectáculo vale (alegadamente) 2,7 milhões de notas verdes, sem contar com as quantidades massivas de ‘merchandising’ associadas à tournée que são vendidas em cada concerto.

No que respeita à construção do seu império, Madonna nunca deixou a responsabilidade em mãos alheias e é tida como uma das mulheres de negócios mais conceituadas do ‘show bizz’. Não só se tornou a primeira mulher a lançar a sua própria editora (que assinou artistas como os Prodigy, Alanis Morissette, Deftones e Jude) como fez questão de se manter na gestão da companhia. Alguém revelou em tempos que o quociente de inteligência desta norte-americana convertida à sobriedade britânica era de 140. De outra maneira, não se perceberia como foi possível manter-se no topo durante duas décadas.

publicado por cristms às 14:08
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1 comentário:
De Ana a 9 de Outubro de 2004 às 18:16
O que se pode dizer.. é a Madonna :)


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